Fernando Machado Silva, poesia ontológica

Fernando Machado Silva nomeou bem o seu livro, embora muitos leitores urbanos jamais tenham sentido na pele esse vento que canta sem anular o silêncio — mesmo sabendo de cor o «obedece aos sentidos» de Feuerbach. O autor oferece uma inteligibilidade pré ou pós-racional, marginal — não de resistência, contra o que agora pretendem os microneorevolucionários, mas de eloquência, que é a forma de compor um corpo-verbo, o derradeiro sacrifício pagão.

E, se conseguimos identificar neste livro algumas paixões tristes, é porque os jogos de linguagem de Fernando Machado Silva mantêm fios linguísticos reconhecíveis. Mas no essencial propõe algo ainda informe, apontando para outros mundos habitáveis — ou um modo heterodoxo de habitar este mundo —, nos quais se caminharia de cabeça para baixo, rente aos microfulgores biológicos e metafísicos da primeira — ou última — camada da Terra. Se ousássemos, talvez voássemos a pique até ao céu, apenas por divertimento. Se ousássemos, talvez bebêssemos água ao contrário, talvez nos enamorássemos pelas moléculas orgânicas que vagueiam, felizes, no Universo ou pela amante que abraçamos para que dois corpos confundam. Se ousássemos haveria mais mundo e menos ego. E talvez ficássemos felizes por ninguém aprender com os erros. Deste modo, «todos sem excepção têm a máxima culpa»: a culpa dos indiferentes.

Reconhecemos que a visão do poeta consegue extrair elementos fecundos da obscuridade. Mas o leitor médio tem outros olhos, com protocolos de apreensão tão disciplinados que só a custo lhes permitem ver algo do que o poeta procura mostrar em claro-escuro. Mesmo os profanos mais treinados e liricamente inquietos carecem de uma liberdade hermenêutica superior. Mas, ainda assim, conseguem colher alguns frutos, que saboreiam como se não houvesse amanhã, como se o tempo parasse no preciso instante da leitura e decidisse retornar eternamente ao mesmo verso, formando um universo-verso. Talvez assim saibamos «até onde nos devemos enraizar». Cientes de que para o otimistas basta um nada para que um raio caia e instabilize o banal. Se os céus não nos salvarem, antes do último suspiro ainda nos podemos lamber com «Le monde est fait pour aboutir à un beau livre
 

até onde nos devemos enraizar
agora
que acordaste
o amor incondicional com a dor
da ausência e a perda
do dois é uma sombra
sobre o teu coração
 

quão largas devem ser as lágrimas
para afogar as preocupações do que poderá ser

Do posfácio, com ligeiras alterações.

pôr uma pedra é uma composição poética em três atos: um exílio que obriga, a custo, a construir uma morada, na qual, numa terceira parte, emergirá, quase magicamente, uma nova parcela de vida. «Exílio», «Onde uma morada» e «Sésamo». Se, no final, Fernando Machado Silva parece exigir a reposição de um sentido ausente da figura do exilado, em coerência com a sua própria condição, continua válido aquilo que Manuel Frias Martins disse na Colóquio Letras de maio/agosto 2014: «A poesia deixou de ser um esforço público de comunicação para passar a ser um gesto iniciático de encenação de uma ausência: a de sentido do próprio mundo.» E «Sésamo» não redime totalmente o «Exílio».

Antes de falarmos do compromisso demiúrgico de cada um dos três capítulos, destaque-se a decisão do autor — que conhece as venturas e desventuras de publicar poesia em Portugal (livros na Companhia das Ilhas, Gato Bravo ou Enfermaria 6) — de entrecortar, ou entrelaçar, lirismo em verso com um ensaio não demonstrativo em prosa. Por vezes, há mesmo técnicas de enxerto: um ramo poético pode desenvolver-se como ramo de prosa, e vice-versa. A formação académica de Fernando Machado Silva — Estudos Teatrais e Filosofia Contemporânea — com Gilles Deleuze a pontuar a sua hermenêutica do corpo a posteriori, a redescoberta de uma espiritualidade sem liturgia e as diferentes condições de migrante que experimentou, e experimenta, deram-lhe a espessura, teórica e vital, necessária à escrita de pôr uma pedra. É, pois, uma obra-diário (enquanto heurística interior), mas também uma obra que escrutina simultaneamente o mundo e o escrutinador do mundo, uma injunção que roça o paradoxal, ou, pelo menos, o disfuncional (a admirável aventura da pós-modernidade ficou sem fôlego quando quis superar a crítica iluminista com uma crítica da crítica).

Escolhendo este dispositivo formal, para o dizer de forma falsa mas compreensível, os poemas e os micro-ensaios do livro operam numa linguagem nascente, pré-metafórica; uma linguagem pulsional que não quer, ou não consegue, domesticar ações pré-reflexivas. Talvez uma linguagem vazia, daí o «aprende a calar-te para te escutares», ouvir o dizer de cada coisa na sua língua pré-comunicativa. Perante isto, o leitor, assumidamente emancipado, convocado, como é, para a definição dos sentidos possíveis — alguns talvez escapem ao próprio autor, como sempre acontece —, deve ater-se às partículas sintagmáticas que edificam os poemas e os micro-ensaios, ser amigo do claro-escuro onde se aloja o humor das palavras, sabendo que a vida não é autoconservação, mas autoafirmação.

Em «Exílio», Fernando Machado Silva trabalha reiteradamente a figura do deserto, uma espécie de desertofilia que aponta para uma viagem para nenhures, onde o ser se confronta com uma mesmidade estéril. Se há «beleza que ainda espreita», ela é esmagada pelo radical desenraizamento do exilado, a quem resta escavar em si, talvez à procura de uma nova maiêutica. Tanto mais que «quem não é estranho a este mundo / tome o próximo sopro». É por isso que, no primeiro capítulo, temos a sensação de que as palavras são mais abre-latas de emoções conservadas no inferno do que fios a tecer um manto de sentido que protege do niilismo. Abre-latas ou setas, capazes de perfurar os escudos defensivos que erigimos quando estamos exangues, setas lançadas à distância, algumas, outras, porventura, com certa má-fé, quando nos aproximamos e nos comprometemos a tocar-nos com confiança. As paisagens devolvem-nos o nosso desespero, os encontros são piores do que os desencontros, os chamamentos não têm resposta. Sagre-se o esquecimento. Talvez seja uma nova forma de descrever a viagem ao fim da noite, sem sabermos se, no centro das trevas, ainda há um coração. «despeço-me quando há demasiado».

Porém, se procurarmos teimosamente partículas de bem (mesmo quando o anjo é várias vezes expulso do mundo), vemos que há uma ascese — não da elevação mas do afundamento — que detém o deserto, permitindo, após vários gestos mágicos (prelúdio ao terceiro capítulo — «Sésamo»), ao ser mais incapaz e solitário de todos os tempos desenhar um pouco da criação. E a pedra, ser multifacetado, que na cultura portuguesa tem, pelo contrário, uma fixidez perigosa ou encerra o presente em si («pôr uma pedra sobre o assunto»), parece estancar algumas partículas de uma utopia negra, ou deserta (o «vazio» é outra coisa).

Em «Onde uma morada», a pedra, o pôr a pedra, é um gesto que estanca o deserto. Mas ficam frinchas e Kierkeggard insinua-se com a sua descoberta de uma angústia que nunca saberemos superar, porque isso significaria o fim do mundo. Por isso, num ato tantas vezes, e de tantas formas, reiterado, afastamos a luz que poderíamos alcançar. Parte-se de dois desertos, ainda que estancados, ruínas interiores e exteriores, para erigir uma morada, casa viva que acolhe e contratualiza um conviver. A cegueira, a angústia e a solidão do primeiro capítulo vão cedendo o lugar à esperança, servindo-se, para isso, de retratos de animais com os seus gestos precisos e fundamentais, como o da garça-real: «espelha serena a pele / do rio de olhar / preso no detalhe / do infinito». E, se ainda há exílio interior, é para extrair dele, combatendo um mundo de excessos, o entendimento raro, a embriaguez invertida, o retraimento essencial. E, mesmo quando se convoca uma possibilidade de lei moral (exercita-se melhor o bem na poesia do que na política, como todos sabem desde Platão), «tudo tem a mesma importância nesta vida».

A elegância, precisão e beleza da fauna convocada por Fernando Machado Silva (pardal, aranha, besouro, cão, formiga, caracol, mosquito, pirilampo…) são uma forma de pôr uma pedra, e ele quer «pôr uma pedra, erigir uma morada». Ter o coração no lugar certo, perseguir a possibilidade do perdão (única redenção humana?), redobrar a importância de uma casa. Assim, numa continuidade que se quer rutura, «o exílio existe para melhor / pôr uma pedra». Os oitos andamentos do poema «Lugar» instauram até um certo hedonismo, mesmo oscilando entre a euforia e a disforia: o prazer de construir uma possível casa, de desenhar uma economia da hospitalidade (talvez à maneira de Derrida, que vê nesse gesto o perigo de abrir a porta à hostilidade).

No terceiro capítulo, «Sésamo», o deserto estancou o seu passo. Não que um qualquer projétil-fénix alise todas as rugas do mundo (não acreditamos, com Frias Martins, em «apocalipses regeneradores, [nem sonhamos] com amanhãs paradisíacos»), mas podemos preparar-nos, o que podemos (devemos?) fazer é preparar-nos, e isso é já imenso, aliás, é tudo o que sempre pudemos fazer. E, desta forma, o raro também assomará, sinal de que o niilismo foi contido (ainda que continue a espreitar). Encontrar um lugar no seio da desolação, do deserto: um lugar para construir uma casa e convidar, pôr nela coisas com vida, manifestar o disponível, estar à altura do recomeço. E Fernando Machado Silva até arrisca uma doçura do término: «um pouco mais para junto do sol / um pouco mais certa a aproximação / da velhice». Parece já não ter tanta dificuldade em colocar palavras sobre os gestos. Sem esquecer as estrias da vida, marcas deixadas pela contração niilista do mundo (uma conquista por inanição), o poema «o trabalho e as noites» — maneira de se inscrever na longa tradição que repete, mutatis mutandis, O Trabalho e os Dias de Hesíodo — narra o nascimento, celebrado com a contenção que provoca a memória do deserto, o brusco espanto e as dúvidas suscitadas pela emergência de um neófito que rasga o manto do hábito e a quem se oferece um mundo ainda meio desfeito.

Assim se expõe um campo de sentido que reconhece o valor do caos para a figuração do cosmos (sempre micro-cosmos). O caosmos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, a regra e o excesso de Georges Bataille, o frenesim demiúrgico de Mário Cesariny, a opacidade espiritual e antropológica de Herberto Hélder, a força telúrica de Miguel Torga, a contenção e profundidade oriental, inscritas nos corpos-alma. A força expressiva que surge quando nos baralham a geografia ou nasce, das nossas raízes, um ser que, sendo nosso, já não é nosso. E outras tantas razões para pormos uma pedra quando o deserto ameaçar invadir-nos.

Lisboa, 11/04/2022

A Morte de António Lobo Antunes

Tropeço Em Crónica

 

Despejavam-se os sacos de roupa no chão e o que mais me incomodava

Era o cheiro a estranho, aquele cheiro típico que é uma mistura da dieta,

Do detergente da roupa, do sabão, dos perfumes, da actividade física

E outros hábitos nocivos, aquele cheiro como uma assinatura,

Como os cheiros a casas alheias, ou até da própria depois de uma ausência prolongada,

Eram calças, camisas, camisolas, t-shirts, quase tudo números acima,

Teria que se esperar por mais uns centímetros de carne e osso,

Isso mais uns meses e dás um pulinho, no calçado colocava-se algodão nas biqueiras

Para não incomodar o ar com as unhas, não me lembro de cuecas,

Já chegava andar com o cu das calças de bombazina roçado por outro cu,

Já bastava aquele cheiro que parecia indomável ao sabão e à água fria do tanque de pedra,

São coisas boas, caras, de marca, e até eram, as peças rejeitadas dos senhores doutores,

Dos emigrantes, dos das cidades grandes, o pedaço de pão que não se acaba por luxo

E se atira aos pombos, mas era uma esmola sempre paga, batatas, azeite, vinho,

Um agradozinho para fazer o papel de pobre, a mim restava-me a vergonha

De se me descalçar um sapato ao andar ou que o antigo cu reconhecesse as calças

E tropeço agora numa crónica do António Lobo Antunes na qual me dou conta

Que fui, sem o ser, um pobrezinho de estimação.

 

Turku

24.01.2017

 

 

 

(A)Parições

 

“a quantidade de criaturas que a nossa destruição vai destruindo uma a uma”

António Lobo Antunes

 

Nascemos em tantos lugares, de tantas formas, para morrer apenas uma definitiva vez,

Num último lugar, nascemos num primeiro beijo, de um olhar espelhado,

Nascemos quando entramos pela primeira vez no desejo de alguém, nascemos na mão

Que aperta a nossa pela primeira vez, nascemos num mergulho no espelho,

Num garfo cheio e estranho que nos explode na língua, nascemos nas asas de uma gaivota

De água doce que nos persegue até de madrugada numa noite branca, nascemos na timidez

Que se ultrapassa num salto e numa gargalhada quase louca, nascemos na queda da pele

Queimada por um Sol equatorial ou nas gotas inesperadas do suor Árctico de uma pele dourada,

Nascemos no gole lento e na sua descida apressada, no calor que se dissipa em nós,

Nascemos no céu de Verão à noite, entre as estrelas no espaço vazio entre a ilusão e o sonho,

Nascemos a cada momento que esquecemos, a cada palavra que nos salva e poderá ser

Sempre a última, este é o útero que nos gera, onde fermentamos, amadurecemos

E amargámos, é o teu berço e todas as faces são a tua, todas as camas a tua,

Todas as portas são apenas um nome, outro nome e outra história, o mesmo fim.

 

Savonlinna

22.06.2015

 

 

Enquanto O Sono Não Vem

 

“de que serve o passado, não temos a certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida.”

António Lobo Antunes

 

Já quase nada me comove, as mortes passam por mim e fica apenas um nome a latejar

E um esforço em focar uma cara, confio que trago comigo o essencial daqueles que são

Em mim e não me desiludirão mais, já quase nada me faz engolir sem excesso de saliva

Na boca, uma criança que chora é apenas um aborrecimento, os anos fazem disto,

O uso e abuso tornam tudo duro, deixam calo, no entanto uma lata onde uma garrafa

De whisky há muito bebida morou, comove, bebi dela às escondidas com o amigo

Dos olhos azuis quando ainda garoto, e dentro daquela lata agora os tesouros da minha avó,

Que apesar de não reconhecer muita gente, me viu por trás da barba e dos cabelos brancos,

E tu como é que andas com essa barba, não acreditando que eu já trinta, naquela lata,

Cheia de amolgadelas e com ferrugem onde lascou a tinta, tudo o que restou de uma vida

Modesta em posses, um crucifixo onde se lê, terra de Fátima, numa cápsula pequena,

Um rosário dado pela amiga que não pode ser ela porque velha, um lápis amarelo staedtler

Mal afiado, usado para escrever o nome nos espaços em branco dos jornais da região,

De onde me lê alto o título de notícias antigas, um jornal mais que informação efêmera,

Conserva-os para treinar uma capacidade adquirida com quase oitenta anos,

Na lata ainda, dois carrilhos de linhas, um preto e outro vermelho e uma agulha que se perdeu,

Um molho de medalhas de santos que se tornou demasiado pesada para andar ao peito,

Travessas para o cabelo, algumas sem dentes, um cartão com a imagem da Senhora da Serra

E uma oração por trás com letra miudinha, dois elásticos brancos que servem de ligas

Para as meias de vidro, e a família toda, fotos de gente que ainda não era gente

E da que já não é, todos felizes, onde se esconderá a tristeza e a miséria nas fotos de família,

O meu avô ainda não bêbado, ninguém doente, ninguém morto, a vida ainda não cansada

De ninguém e ninguém cansado da vida, já quase nada me comove, mas depois abre-se

Uma lata contra a dureza dos anos e aquele tão pouco, sendo tudo, mostrando-me

O último esforço da memória em se agarrar aos objectos que restaram, quando a vida

Uma paisagem longínqua por trás das costas, e naquele lápis o mundo todo enquanto o sono não vem.

 

Turku

20/08/2015

 

 

Advertências Tropicais 

 

Podia falar de Lisboa, mas apenas dois ou três amigos e umas noites raras, 

Que parecem ter sido um sonho estrangeiro, podia falar de como gosto 

De trazer comigo o António Lobo Antunes para a beira de doenças tropicais, 

Nórdicas queimadas do Sol com um fogo que de dentro se apaga, 

Mas hoje prefiro falar do perigo que é deixar russas à vista das aves de rapina, 

Corujas sorridentes, filhos do sul e de Janus, forjados a chico-espertismo 

E pasteis de nata, o amigo nórdico piscou um olho, quando os dois abertos, 

Um esvoaçar violento, um espasmo de rapto e a russa de papo cheio 

Sacode a areia dos joelhos enquanto o mar desenrola histórias futuras. 

 

Canggu 

10.02.2019 

 

O Cemitério Somos Nós

“pobres girândulas finais dos destinos anónimos.”

António Lobo Antunes

 

O cemitério somos nós, enchemos num dia de chuva, todos os papéis

Que se perderam, todos os sorrisos que se lavaram, todos os nomes

E acima de tudo, todos os que nos foram e aqueles que não quiseram

Que fôssemos neles, todas as portas fechadas com flores podres à entrada,

Os autocarros que partiram para a felicidade que se lhes imagina

E os que ficaram avariados nas garagens colonizadas por aranhas,

Todos os porcos nas manhãs geadas e o sangue quente a fumegar

Nos olhos dos vivos que fogos fátuos no verão, todos ao cemitério

Num dia de chuva entre dias quentes, todos os amigos a quem

Lhes falhou o tempo ou a vontade ou a vida, todas as curvas da estrada

E dos rios, todas as noites estreladas e as manhãs do mergulho no nevoeiro

Em direção aos bons-dias sempre quentes sem ponta de nariz,

O cemitério somos nós, onde todas as cidades convergem e se esmagam

Todas as ruas os mesmos segredos, cada árvore um gemido de madrugada,

Cada sonho uma derrota acordada, e todos os lábios nos olhos fechados

Em forma de lápide que muda de cor sob o céu que se desfaz numa tristeza universal.

 

16.06.2016 

Turku

 

 

A Poupança Das Lágrimas

Custa a acreditar que aqui alguém chore, à noite há animais que o fazem pela gente
E de dia o Sol não permite certos desperdícios, mesmo quando tentam decifrar
O sentido da vida nas sombras vertidas pelo sangue seco fora. O António Lobo Antunes
Fala de uma África de gotas ou pingos em lábios de musgo, os joelhos falam mais que gente
E lágrimas as dos outros, os que ficaram com o vazio das que sem mais tempo,
Cortado a catanadas, granadas e a alemã passa, numa frescura quente de ancas fartas
Numa proporção de tesão fácil e diz-me com o azul loiro dos seus olhos, que à noite,
Na tenda que faz de casa de banho, escondidos na vibração de uma cidade febril,
Quando se calarem as desgarradas dos profetas e o pecado souber a animalesco
E se apague na descarga de um autoclismo, como se lágrimas poupadas,
Levando com elas o papel higiénico do gesto apressado, quase um desprezo
Depois da carne que fica nos dentes, um incómodo a presença e um beijo mais
Que um adeus, desaparece, até nunca, mas obrigado na mesma pelo alívio das lágrimas
Que não pingam, explodem espessas nas nádegas rosadas e anónimas, que o Sol
Não permite certos desperdícios e os animais que se envergonhem também
Da marca branca no anelar, promessas de metal numa ironia preciosa que se escondeu.

26.02.2012
Nairobi



K. P. Kaváfis, nota de leitura a «Poesia Completa»

Acabou de ser editada, na Assírio & Alvim, a poesia completa de K. P. Kaváfis em português, língua de chegada que se acredita estar feita, ou melhor, que se foi fazendo para agigantar o lirismo. Talvez. Conhecemos o ditado sobre presunção e água benta, mas o que seria da órbita celeste da observação, da sensação e do pensamento sem alguma húbris?
Entre sopros formais (o do Ípsilon de 19 de dezembro de 2025) e informais (o de amigos com dedos imperfeitos para coisas práticas), já sabia que podia esperar muito, eu que há bastante tempo me apaixonei conceptualmente pelo poema «Ítaca» (numa forma que talvez relance noutra direção o conceito de «proximidade estética» de que fala Miguel Tamen). Conheço bem, porque habitam em mim, os seres que gerem expectativas como se fossem subtis censores da frustração. Habitam mas vão-se transubstanciando em materiais mais nobres, uma nobreza de espírito pessimista, essa que faz da necessidade virtude.
Peguei, pois, no livro como se fosse a Primavera. E li-o, talvez mais em modo dionisíaco do que apolíneo. Um dionisíaco mais catalogador (arrisco o dissenso) do que inebriador. Ou melhor, um dionisíaco que mesmo quando nos eleva até ao limiar do abismo, assegura, baixinho, que é possível descer em vez de cair.
A diferença entre um prefácio e um posfácio (neste caso, de Tatiana Faia) é que este último tem a virtude da modéstia, a não ser que seja uma falsa modéstia (bem acima da imodéstia), o que, tenho a certeza, não é aqui o caso. Por esta razão e porque começo a gostar de obedecer a protocolos de leitura, só li o ensaio (no sentido da «tentativa» de compreensão que nos vem de Montaigne, e que tantas vezes esquecemos) de Tatiana Faia depois dos poemas, numa tradução que me disseram ser exemplar, e das muitas páginas de notas, quase incontornáveis. Sem Tatiana Faia, perder-se-iam os contextos geográficos, históricos e sociais que marcam a incubação poética de Kaváfis.
Houve clara novidade na hermenêutica informada e criativa de Tatiana, mas coincidimos nos três poemas mais tocantes. Diretamente em mim, indiretamente nela, que utiliza o termo «famosos» para os destacar. Um de nós está mais limitado pelo cânone, mas isso não invalida que possamos caminhar juntos em três poemas-monumentos.
Um é de 1904, «À Espera dos Bárbaros», e recupera a história, com certeza apócrifa, de Roma esperar a vinda dos bárbaros (haverá aqui uma reminiscência da dialética apolíneo-dionisíaco da Antiguidade grega?) como forma de renascimento pelo apocalipse. A última estrofe acrescenta ao mito uma possibilidade de sentido que define novas órbitas:

«E agora, que será de nós sem bárbaros?
 Essa gente era uma espécie de solução».

Os outros dois são de 1911. «O Deus Abandona António», aconselha-nos a não aceitar esperanças inúteis, a sabermos despedir-nos do que perdemos, de Alexandria no caso concreto, mas não será esse o gesto mais justo para tudo, e é tanto, o que vamos perdendo? «Ítaca», que me ensinou a amar a cidade da minha adolescência por ter sido apenas madrasta, torna claro que a viagem deve demorar o mais possível: quando somos Ulisses convém não regressar depressa a Ítaca, não saímos de lá para isso, mas antes para, como queria Goethe, percorrer o finito em todas as direções. Percorrê-lo com vontade de nos perdermos, sem deus ex machina redentores. Tanto mais que

«Ítaca deu-te a bela viagem.
 Sem ela nunca terias partido.
Outra coisa não tem para te dar.»

Boca Cheia

 

Noites perdidas no sono inconsolável

De nostalgias inúteis como as folhas

Apodrecidas aos pés de nórdicos gigantes

Hibernados numa longa noite sem recreio,

Vira o disco e toca o mesmo cinzento

Denso que um dia inspirava liberdades

Mais abertas que ceder à verdadeira vontade,

As restrições de mão na porta

E outra na carne que se rouba por despeito

Numa oração de murmúrios viscosos

À perdição de uma alma que nunca

Nos foi verdadeiramente limpa,

Cair por fim despejado nas saudades

De um pó quase dourado de uma familiar

Encruzilhada rodeada de figueiras oliveiras videiras,

A esta distância o verão parece a impossibilidade

Da juventude e engolem-se remorsos

Como sonhos mãos vazias desejos inapagáveis.

 

Turku

02.12.2025

Poemas Estivais - Parte II

Lembra-me um sonho lindo acabado

Eu não quero ser eterno
quem quer viver para sempre
diz o Freddy mercury
mas queria que esta melancia
durasse mais umas porções
aí já é o milagre da multiplicação, confundo tudo
queria também pular de nenúfar em nenúfar
até cair nu no lago, sou muito descoordenado
e desse refrigério talvez nascesse um quadro
pintado antes do meu nascimento
e sobrevivendo à minha morte
Desisti de perceber a desordem do tempo
é difícil, come melancia, rapaz, sopra uma voz,
para ver se facilita.
 

Depois de ir levar gente ao barco

Não sei se era isto que os antigos
sentiam depois de se despedirem
das pessoas que partiam nas embarcações
para em sítios longínquos guerrear
pilhar, matar e ocupar
e os que ficavam voltavam de mãos húmidas
às casas a cheirar ao silêncio da ausência
e a chorar os sacrifícios feitos invocando o vento
e conversavam à lareira sobre o Minotauro
ou protestavam sobre seres afins
e falavam da partida como uma espécie de morte
Hoje os sítios não são tão distantes
Estão cartografados
mas há telefones para receber notícias das chegadas
e imagens das guerras e pilhagens que ainda persistem
os reencontros são mais frequentes
as viagens já não duram décadas
Há mais sangue e menos epopeias
e inúmeros sacrifícios vãos e ocultos
mas o vazio deixa ainda
nas casas um lastro nos espaços
como a chuva de micro poeira
que brilha quando a luz incide no ângulo certo
e nos perguntamos
se não se tratará ainda
dos restos da pele dos que partiram
e como sob o espectro de fantasmas
iremos refazer já de si a tão incerta nossa vida  

Heráklion, agosto 2025