Cantiga da Segunda Primavera

Nem as canções
connosco mudarão
uma vez levada a temporada
e o tambor fresco
para cantar
outra vez e sem maneiras
a renovada temporada
nas coisas que então
daqui poderíamos guardar
mas é tão pouco
tão pouquinho vai ficando
que nem as canções
connosco mudarão
o castigo

de Cantigas da Malta à Janela [inédito, 2021]

Cantiga Oitava

O apego vai ser melhor
que a solidão
quase canta assim
e assim carrega o Benjamim
e a gente vai atrás
vai atrás e acredita
a gente pisa nas mais lentas
e baixinhas sílabas
e com elas monta a mensagem
quer ficar nesses emblemas
para guardar e pelos meses
capazes de transportar
naquela rima que fica 
e desenha a cambalhota
da passagem
uma qualquer
e então sim
estilos da malta à janela
fica um bocadinho melhor
na solidão

de Cantigas da Malta à Janela [inédito, 2021]

Um mar de muros

Queria recordar com toda a força de que fosse capaz. Repor aqui à frente o impossível rigor de uma imagem tão parada, tão feita num certo dia, numa parte pequena da hora, de passagem, passando. Há dias vi de longe o mar, recortado azul preto entre montes e casas brancas. Foi de longe, mas não tanto. Isto é, nunca fui, nunca estive ali, e vi o mar como se vê um desconhecido cruzando connosco a rua, todos os dias, e lhe percebemos um traço do rosto, depois outro. Muitas casas, vidros e pedras, ferros, papel. Mas dava para perceber aquela mancha esbatida lá longe, num escuro diferente daquele que a circundava como um presépio abandonado, que só podia ser o mar. Passo ali muitas vezes, mas não recordo assim escuro e lento o mar, não o tom daquela maneira, entre pedaços de terra e cimento, como se fosse sempre a subir e subindo muito até lá poder chegar. Tento lembrar em quantas e tão diferentes circunstâncias passei ali daquela forma, ou semelhante, mas não posso. Lembro repentes, caras de pessoa, nomes, o corpo quase igual. O passo é outro, diz que ninguém anda duas vezes. E o traço dos montes mexe também com o das casas, não consigo. Eu não tinha visto assim o mar. E pude reconhecer também a cabeça de um homem, cabeça escura, baixa, a tarde encolhia-se já sobre a noite ou isso parecia. Por isso não sei se o moreno daquela cabeça era mesmo do homem ou imprecisão ocular minha, maneira inclinada de ver as coisas. Fazendo filmes com elas, uns com os outros, ver sempre do outro lado do muro. Mas a cabeça movia-se muito, para aqui, para ali, como se o homem cavasse terra ou semeasse. Talvez isso. Parecia o gesto de quem semeia com primor um recanto de horta, e deposita no movimento a alegria e a contenção de querer avivar o chão, de manter o corpo fresco no calor e na humidade do fofo. Não sei em que momento me apercebi daquele corpo, daquele mover alegre entre árvores e campo. Eu queria ver o mar, procurava o mar nos intervalos das coisas, distinguia figuras marítimas, algum barco, e vi o contorno do homem. Não me viu, não podia ver, mas quero pensar que cada um de nós sabia, à sua maneira, não estar ali sozinho. Tão longe, tão em cima de um bocado de mar. Às vezes a terra é só essa estação de comboio, um café tomado à pressa nalgum recanto mais feito ao romantismo. Outras vezes é só um perfume do nosso despiste. É provável que me tivesse recordado de uma canção, e cantado baixinho umas quantas linhas, poucas e sempre as mesmas, uma e outra vez. Só naquelas partes em que a gente cresce mais com a música e começa a cantar por cima do som, das madeiras e bateres do som. Acho que era e era mesmo a “Sempre Ausente”, de António Variações. Terei parado naquela mancha escura de mar, naquele pequeno corpo que distribuía sementes maiores que casas e montanhas. Só me lembro daquele homem, lá no meio, e a música passando fina, tão baixo, entre nós. Depois deve ter começado a fazer noite, mas eu ainda ficava. 

Granfondo: Não é fado normal

Vinha no balanço por intervalo e quando a canção começa a crescer então alguns de nós batem palmas, outros procuram o rosto de um amigo não muito longe, queremos perceber o chegar da música e como bate e como começa a ficar a música em cada um de nós, por isso mexemos e olhamos depressa, temos aquela sensação do amigo que passa perto e não acaba de chegar, mas vai chegando, e depois tudo se começa a baralhar e confunde, começam essas terras a mostrar onde a gente não está e onde se calhar nem sequer quer estar, lugares ao fim e ao cabo bonitos, ou lugares de que a gente pode gostar, lugares fora de lugares, lugares bons, e a intuição mete-se gorda connosco e começamos a dizer ou a pensar que aquilo não é normal, ou primeiro pensamos muito fundo cada um de nós e depois dizemos como segredo, muito baixinho, nos pés da fala ou da falinha como aquele amigo disse, que isto não é normal, que não devia ser assim, que a guitarra vai por um sítio maluco, que faz até um estremecimento no corpo tipo navio, como se a gente andasse embarcada mas só de noite, nas horas do dormir e do esquecer, ainda que às vezes só desejemos dormir tão depressa quanto possível, por gumes uma viagem, e voltar a um dia parecido no dia seguinte, com coisas próximas e vizinhas, a música às vezes também faz isso mas por mais tempo, durando-nos muito mais tempo, ao ponto de acreditarmos ser possível retomar o passado todo ele num achado momentâneo de entusiasmos, quando crescem em nós emoções até então de pedra e compreendemos que algo em nós tinha começado a mudar, mas quando?, quando começou isto a ser diferente?, e depois sossegamos e voltamos a pôr as coisas nos sítios e revemos as coisas assim paradas, notamos certo cansaço e sentamos ao lado das coisas, e então aqueles traços rijos do passado voltam a desaparecer, quase sempre de forma violenta e imperceptível, e ainda corremos para os alcançar, fechamos os olhos ou erguemos o rosto e por momentos julgamos poder recolher uma ou outra imagem, mas não, acabamos por esmorecer e alguma coisa nos distrai e queremos sair à rua ou apreciar uma comida abundante, passar um disco que há muito não escutamos ou fazer as tarefas lá de casa, e tudo isto porque a música fez um gesto diferente ou nós ouvimos diferente, como nunca, como jamais nos fora possível, até porque esta é sempre a primeira e única e irreparável vez de todas coisas, e a música chega de um lugar sem nome mas à espera de nome, e a música fica, a música vai ficando em todas as casas e todas as músicas, e batemos palmas, poucas, só para começar, queremos ouvir por dentro do som e tocar onde só a cor nos permite por momentos poucos momentos morar, subir um bocado da montanha e montar ali a casa, a casa que é para sempre, a casa que vamos fazendo um pouco por todo o lado, e morar ali em silêncio, ficar sempre no silêncio dessa música tão estranha que não se cala nunca, a música também é uma casa, pensamos, portuguesa poesia, o teu corpo também é casa, e quando juntamos mãos e braços também estamos a crescer casas, e gostamos de pensar nisto, acreditamos, já podemos sorrir uns com os outros, tocar ombros, avançar por onde queríamos ir e que depois estragou caminho, fazer força para que a malta esteja bem, querer envelhecer perto e cada vez mais perto mas não ficarmos só nós, certo calor de sermos nós a passar uns pelos outros, dizer aquelas coisas que temos guardadas para dizer, falar forte, falar da gente, e chega o momento em que já lá estamos, temos coisas à volta, ou não temos nada mas estamos, e começamos a ligar um pouco menos à música, já andamos um pouco mais dentro da música, perguntamos, reconhecemos, pedimos perdão, temos tudo pela frente, olhamos aquele sítio de longe e só então percebemos que é um fado normal. 

Cavalos em movimento

Uma vez disse que gostava de entrar em Lisboa a cavalo, que partia de muito longe, nem sabe de onde, e que ia por aí fora comendo terras e terras a caminho do cotovelo do mar, desse recosto de terra onde, diz, bate e bate o mar, e entrar na cidade montado no seu cavalo com ar fresco e sorriso montado, e a malta toda a ver, todo o mundo na rua com metais coloridos e braços altos tipo estátuas de vidro, mas um vidro diferente, que não sabe bem explicar, e entra na cidade e vai por aí fora, desfaz as ruas que muitos tempos antes, muitos anos antes palmilhara sem freio, quando ali morava ou passava perto ou simplesmente se imaginava pisando aqueles passeios, diz ele que se vê entrar na cidade montado no cavalo e que depois chega à porta de casa e diz já cá estou, e entra em casa montado no cavalo, tira qualquer coisa da mochila e arranca em sentido contrário, retomando o trilho que o levara até ali. Uma vez disse que gostava de montar uma tenda em Fuerteventura, mas que só sabe Fuerteventura depois de escutar o disco de uma madrilena que faz o sol inchar quando faz sol e a chuva engrossar no corpo quando chove, que gosta, que quer chegar lá e montar uma tenda e ser valente, correr descalço nos vulcões e pisar o mar, pisar do mar, diz, que a grande valentia é saber pisar do mar, e que a valentia é a parte gorda da vida, e quando disse isto nós sorrimos, nós gostamos e ficamos a pensar em Fuerteventura e nos cavalos em Lisboa, diz que chega e monta a tenda nas praias de Fuerteventura e depois fala numa selva, numa selva que não é dali, que corre num cavalo pelo meio do arvoredo e que corre cada vez mais depressa e o arvoredo não acaba, que passadas umas horas se apercebe que afinal o cavalo não corre e que portanto ele está sentado num tempo grosso mas um tempo ágil, nervoso, porque ao fim e ao cabo os membros do cavalo estão activos e sincronizam-se no movimento do passo, de um passo que parece vigoroso e harmónico, redondo, e que as árvores continuam a malucar de um lado e do outro, sempre as mesmas árvores, de todas as cores, diz, e perde-se na descrição das cores das árvores, dos troncos?, da folhagem?, perguntamos, e fala no verde e no roxo das árvores, do amarelo e do azul, do encarnado e do prata, diz o prata, fala em árvores brancas, árvores que se repetem umas depois das outras no bater aéreo das patas de um cavalo gigante, diz, um cavalo que imobilizado mas em movimento vai ganhando corpo e cresce e as árvores crescem mas não tanto, como se a vontade do cavalo prevalecesse sobre a da cor da selva. Fala devagar quando fala de Fuerteventura ou quando se lembra da alegria de Lisboa. Uma vez também disse que tinha uma vontade de barco e quando disse isto ninguém percebeu ao certo o que queria dizer, por minha parte só passados uns anos entendi o que era possuir um arranque daqueles, que tinha uma vontade de barco, e braços de barco e uma cabeça feita de barco, que tinha aquelas maneiras tão feitas e tão agrestes e que podia desaparecer para sempre mar adentro, qualquer mar, qualquer praia, diz, e remar meses e anos e todo o tempo rumo ao chão do mundo ou ao tecto do mundo e evitar terra quando a visse, inverter rota ao mínimo avistamento de um objecto fixo, desviar aquele corpo de barco dos outros, manter os olhos na mais ínfima das folas, diz, conservar o barco num ideal de movimento contínuo, incessante, um remar eterno, um remar de não querer chegar nunca, remar até que dele se esqueçam e ele próprio, muito antes disso, se esqueça daquele corpo de barco que a língua de um país lhe tinha ensinado.