Lá (em alemão, Erlebnis)

Para poeta a sério falta-me a concretude
de ter um dia percorrido as ruas

as ruas todas

Precisaria para isso de me levantar mais cedo
ou mais tarde
e ter outra soltura rente ao chão

Se soubesse teria aprendido
por exemplo a manobrar binóculos de plástico
passando-o de uma mão para a outra
para maior ligeireza das vistas
a caminho do café para o primeiro da manhã
ou de outro sítio onde talvez me conheçam vagamente

Há sítios onde me conhecem vagamente

Terei experimentado alguns cigarros fora do vício
para melhor custo-benefício

Mas o certo é que não percorri quase ruas nenhumas
não as percorri pelo menos como deve ser
e os meus amigos só bebem quando calha
e às vezes cai-lhes mal

Passeio entre os néons quase sem dar por isso

É que terei percorrido talvez umas quantas ruas
ou seja em termos poéticos
isto é bem medido por medidas rigorosamente poéticas
quase ruas nenhumas

Um dia que tentei melhor performance
deslizando no passeio sujo pelo meio de roupa velha
rente à parede e depois não tanto
três ou quatro pingos de goteiras escusas e tudo
mesmo entre os olhos e os óculos
como mandam as regras
mas desencadeei acidentes
por ir distraído com uma aranha nos cabelos
e a respirar o embalo de versos
boca-a-boca com ângelo de lima

É que não vi verdadeiramente as ruas
Não verei porventura verdadeiramente as ruas
não sou dos filhos certos de cesário
e o álvaro de campos apanhou-me já um pouco de lado
por causa de umas doses de artaud no liceu

(essas acertaram-me em cheio na pestana
que não usava ainda óculos na altura)

Vi quem tenha visto
isso vi e encostei-me fiz-lhes muitas festas nos pés
sei a geografia do calo e do tenro
mas eu próprio
que sou dos filhos também não muito certos de pessanha
por via de coca-cola vídeos de terror e frank zappa
e também de pais embora não saiba ao certo como
não vi não verei não estou sequer bem a ver

mas talvez tenha tocado
por sorte certamente
o ponto onde coisas tocam noutras coisas

Fui lá com a língua

Scuff marks

Nós a quem foi dito

em reuniões em torno da tese

Break things up

Split paragraphs 

Flag up new things

e sobretudo

Move the argument along

e mais liricamente

A few more signposts / less gentle nudging.

que era maio não era maio
de resto usávamos mal o tempo mas é certo
que víamos snooker até às 5
que às 7 chegavam agentes
para inspeccionar os nossos usos do espaço
contra inventários anteriores
do estado da matéria
(levando em conta a passagem do tempo
o inevitável wear and tear do mundo) 

Nós em exílio rodeados do magro espólio
de visitas à loja dos trezentos
presos aos corpos ao fumo ao eco
ao cotão solto à voz baixa a epígrafes
à marginalia de fábulas mínimas
a um pequeno dicionário de bolso
às contas da luz aos rumores de rios
ocres do outro lado do mundo
– essas veredas e cúpulas –
víamos televisão com o fundo do ar a negro
como num filme
de um cineasta muito político
embora para aguns algo sfumato
agora em fase intimista atonal
de nus reclinados grandes planos de retinas
e torneiras – leu porventura rilke
a mais - filmado talvez em Paris
dentro de portas (e Paris seria a luz
movente e vento nas três janelas altas
que mal abriam sendo que a luz era pouca
e não era Paris) ao longo de três meses
ou quatro meses de desilusão
na desilusão de finais dos anos 70
que pedíramos emprestada
e acordávamos
era já noite num estúdio com um pequeno jardim
nas traseiras ao lado de belíssimas pizzas finas:
quatro ingredientes, 5 libras 

que juntámos assim
mantimentos para mais uma mudança de casa
e colhíamos já meio desfeitos livros
ervas desconhecidas sofás em óptimo estado
que um banco ao virar da esquina
deixara no meio da rua, nós que chorámos
a morte de ratos, encontrámos máquinas
de café krups no lixo, com o verso
que nos parecera autobiográfico: 

sligh leak, no frothing, otherwise fine.

Lembrei-me de jean genet

Lembrei-me de jean genet
mas já não se pode passar visita a giacometti

Com um ligeiro inclinar do pescoço
fiz o que pude dei o braço
a torcer a todos os deuses menores

Há umas décadas atrás
seria tão ágil de veias tão leve
gasto e ventoso

Estou certo que dispensaria cadeiras
e estaria solto em sítios

os dentes estariam mais espaçados
a simpatia do pó seria evidente

Levanto-me

Não sou jean genet
não sou giacometti
nem sequer morri

Suponho que estou aqui
mas se me tocassem desfazer-me-ia.

Escalas

Se desci a poços 
foi por não saber fazer palas sobre os olhos 
nem outros truques de abat-jour

Porque largar a infância 
era ir na direcção inversa 
dos túneis vastos que ela me deixara na vista
era arranque em bruto para o alarme 
das outras idades 
cruzando-me com rimbaud em sentido contrário
deixando cair lâminas de barbear pelos bordos 
e levando às cavalitas poetas gastos
nortes de áfrica de hugo pratt 
a cores tatuados nas costas da mão 
para o caso de se cansar de cadernos e delúgios

Se subi a postes 
foi pela mesma razão 

porque o chão era extenso 

e que viesse depois a força da gravidade 
dizer-me onde estava
que ano era
e onde seria preciso aplicar as ligaduras 

À beira de uma graça furiosa

Alguém:

descobrir que não há Deus, que alegria! Põe a gente à vontade. Respira-se de outra maneira
e
deus. se tiverem equipamento. investiguem-no
e

Ainda não se respira como devia ser

I. Alguém dizia: a morte, na tua poesia, vive. Não é mortífera. Primeira impressão em negativo.

II. Num manual de anatomia espanhol de 1556, de um tal de Juan Valverde de Amusco, um écorché segura numa mão a faca, noutra a própria pele. Alguém diz: Apolo e Mársias. Proponho outra legenda: “A certa altura da sua juventude sumptuosa, Kafka pôs de lado a sua cópia bem manuseada de Herberto Helder e experimentou a arte da prestidigitação”. Tome-se a figura como parábola do ofício frio e exangue a que me proponho. A pele és tu. Venho do lado da faca, e não do fogo. É uma espécie de fidelidade.

III. Dizias: insondável entendimento das metamorfoses. Alguém dizia. Dizia: uma arte interna. E pegava em objectos vivos, terríveis. Líricos, vivos. Chegava ao centro. Dizia: placenta. Experimenta esses escafandros. Dizia. Desce aos poços, experimenta um a um ofícios debruçados, move o cuspo de um lado ao outro da boca, por exemplo, como alavanca para as mãos. Experimentei, e desci, e experimentei, e movi. E disse. Bombeei sangue até partes ocultas. Isto em frente a amigos. Que diziam: é bonito, esse jogo de tubos. Vi-os a não verem o prodígio. É também difícil o ofício de ver a ausência de prodígios.

Voltei a ser o mais inepto pirómano de ervas do meu tempo. Dizia: dai-me uma alavanca e eu emperrarei o mundo.

Venho pois falar-te dos meus escafandros avariados. De pedras de isqueiro gastas. Da felicidade da falha nos motores da fosforescência. Dos frutos frios, por fora, por dentro não aquecidos a electricidade. Alguém dizia. De botânica petrificada, de magia exausta. De coisas e palavras encerradas, e não cerradas, em torno do côncavo. Do ponto morto no meio de uma sofreguidão de ímans.

IV Dizias: a inteligência que aparelha o caos em relações sensíveis de elementos. Venho pois falar-te de uma certa estupidez.

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